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  • Conto Companhia das Letras

     
    Contém um conto: mestres do gênero
    #contémumconto
    Adeus a Angria, de Charlotte Brontë
    Tradução: Julia Romeu

    Agora já escrevi diversos livros, e por um longo tempo me demorei sobre os mesmos personagens, cenários e assuntos. Mostrei minhas paisagens em todas as variedades de sombra e luz que a manhã, o meio-dia e a noite, o sol nascente, a pino e poente podem lançar sobre elas. Às vezes, preenchi a atmosfera com as tormentas brancas do inverno; a neve ornou os braços negros da faia e do carvalho e cobriu os parques das terras baixas ou as passagens das montanhas dos distritos mais ermos. De novo, a mesma mansão com seu bosque, o mesmo urzal com seus vales, foram suavemente coloridos com os tons do luar no verão e, na mais quente noite de junho, as copas das árvores se encheram de folhas, debruçando-se sobre clareiras tintas de flores. O mesmo ocorre com as pessoas. Meus leitores se habituaram às mesmas feições, que viram ora de perfil, ora de frente; ora numa silhueta, ora num retrato completo — variando apenas com a mudança do sentimento, do humor ou da idade; iluminadas pelo amor, coradas de paixão, enegrecidas pela dor, inflamadas pelo êxtase; na meditação e no júbilo, no pesar, no desprezo e no prazer; com a forma arredondada da infância, a beleza e a vivacidade da juventude, a força da maturidade, as rugas do declínio pensativo; mas devemos mudar, pois os olhos se cansam do quadro visto tantas vezes e já tão familiar.
    Mas não me apresse demais, leitor: não é fácil banir da minha imaginação as imagens que a tomaram por tanto tempo; elas foram minhas amigas e minhas íntimas e eu poderia, quase sem esforço, descrever os rostos, as vozes, as ações daqueles que povoavam meus pensamentos durante o dia e, raras vezes, surgiam de forma furtiva e estranha nos meus sonhos à noite. Ao me afastar deles, sinto-me quase como se estivesse no umbral da porta de casa, dando adeus a seus habitantes. Quando tento criar novos, sinto-me como se estivesse numa região distante, onde cada rosto é desconhecido e o caráter de toda a população é um enigma que levaria muito escrutínio para compreender e muito talento para descrever. Ainda assim, anseio por deixar por algum tempo aquele clima ardente onde permanecemos por tanto tempo — os céus de lá são incandescentes, pois o brilho do pôr do sol está sempre espalhado neles. A mente deseja abandonar a agitação e se voltar para regiões mais frescas, onde a alvorada surge cinza e sóbria e o dia que nasce fica, pelo menos durante algum tempo, suavizado pelas nuvens.
    1839
    Conto presente no livro:

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