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  • Jeito de Matar Lagartas #Conto Companhia das Letras


    Olá, 

    Eu recebi este e-mail porque me inscrevi na newsletter “Contém um conto”, histórias semanais selecionadas e enviadas direto pro meu e-mail. O conto desta semana é de Antonio Carlos Viana e faz parte do livro Jeito de matar lagartas. As histórias de Viana tratam de aspectos que, à primeira vista, parecem corriqueiros, mas que fazem refletir sobre questões atemporais. Aproveite!

    #contémumconto
    "Jeito de matar lagartas", de Antonio Carlos Viana
     

    As lagartas nunca foram tantas como naquele ano. Elas chegavam anunciando o verão. Diziam que, quando eram muitas, o verão seria muito quente e os cajus, mais doces. Eram lagartas de uma cor intensa, de um castanho que nunca vi, gordas, bem gordas, e Laércio, o filho de seu Laurentino, o caseiro de tia Marluce, as estourava com o pé, fazendo um ploc que me incomodava.
     
    Tia Marluce, com sua alma de santa, não gostava de matar nada. Ela contava que havia na Índia uma seita em que as pessoas não faziam mal nem a uma formiga. Quando andavam pelas estradas, iam varrendo o chão à sua frente com uma vassourinha para não pisar em nenhum inseto. Ela não fazia isso porque não vivia na Índia, mas, se vivesse, acho que faria. Ela dizia que lagarta também era vida, cobra também era vida, e como vida deviam ser respeitadas, mesmo que dessem nojo e medo na gente.
     
    Laércio estourava as lagartas escondido de tia Marluce, e eu via como ele as estourava com gosto. Dava vontade de fazer igual. E começamos a fazer tudo longe do olhar dela. Ela perguntava o que a gente andava aprontando, o dia todo pelos matos, não dizíamos nada, mas acho que no fundo ela sabia bem o que fazíamos. Sua preocupação era Lídia, a menina que ela criava, nos seus onze, doze anos, toda parrudinha, os peitinhos já apontando e que Laércio chamava de pitanguinhas.
     
    Tia Marluce falava que menina não devia andar pelos matos como menino, mas também não fazia nada para barrar. O dia inteiro ela ficava pelo sítio sempre ao lado de seu Laurentino, porque, dizia ela, se arredasse pé ele fazia tudo errado.
     
    Laércio já era um menino do mundo e dizia umas coisas que deixava Lídia meio sem graça, mas a gente tinha certeza de que ela não ia contar nada a ninguém. Lídia brincava de igual para igual, sem aquela de ser menina. No desespero de matar as lagartas, Laércio de vez em quando gritava: “Minha lagarta está crescendo!”. Eu caía na risada e Lídia perguntava: “Que lagarta?”. Ele falava que não podia mostrar porque ela queimava mais do que lagarta de fogo. Aí caíamos na risada e Lídia fingindo que não estava entendendo nada, mas nós dois sabíamos que toda menina entende, logo ali, naquele sítio, com tanto bicho para ensinar lição de tudo, de tudo que era jeito. Ela mesma nos perguntou um dia por que cachorro demorava tanto. “Tanto como?”, perguntamos a uma só voz, aí ela desconversou, fez de conta que não tinha perguntado nada.
     
    Logo de manhã cedo saíamos para a nossa trabalheira e víamos um monte de lagartas andando embaixo dos cajueiros. Naquele andar lento, elas iam invadindo tudo. Meu medo era que chegassem até os quartos e nos queimassem com seus pelos de um castanho fogoso que dava arrepios em qualquer um. Lídia dizia que não tinha medo, tinha nojo. Aí Laércio dizia: “Mas tem lagarta que não dá nojo em ninguém. Quer ver?”. Mais outra gargalhada nossa. Uma vez ele estourou uma com tanta força que o visgo foi cair direto no olho de Lídia. Isso é normal, ele falou, toda lagarta solta visgo. Lídia fez uma cara, não sei se da graça de Laércio ou pelo visgo da lagarta. Tia Marluce que vinha chegando dos matos mandou Lídia lavar o olho com água de mata-pasto, que também era bom para dor-d’olhos.
     
    A verdade é que não dava para ter pena daquelas coisas asquerosas rastejando por tudo que era canto. Eu me perguntava por que existiam coisas no mundo que não serviam para nada, como as lagartas. Só serviam para tirar nosso sossego.
     
    O pior era que o sítio tinha muito cajueiro e as lagartas caminhavam pelos galhos onde só poderíamos subir depois que fossem embora. Para onde iam, ninguém sabia. Diziam que, se elas tocassem em nossa pele, podiam matar, a pessoa perdia o ar, ia sufocando aos poucos e, se não fosse levada logo para o hospital, era morte certa.
     
    O jeito foi cada um de nós aprender seu jeito de matar lagarta. O meu era diferente do de Laércio. Eu gostava de juntar um bocado delas, pegava com uma pazinha, aí elas se enrodilhavam, formavam uma pequena coroa cor de cobre. Eu jogava as lagartas dentro de um saco plástico transparente e amarrava a boca para ver como elas iam morrendo. Algumas morriam logo, mas outras demoravam quase o dia inteiro. Lídia nem gostava de ver. Eu, sim, gostava de ver a morte chegando aos poucos, as lagartas se contorcendo, se contorcendo, até parar de vez. Dava certo encanto, não vou negar, ver os últimos momentos de uma vida, sobretudo se fosse a de uma lagarta. Lídia preferia jogar álcool em cima e tocar fogo, mas tia Marluce descobriu e disse que aquilo era muito perigoso, brincar com fogo nunca deu certo, e ainda mais para matar bichos inocentes. Inocentes? Nós não achávamos. Se bobeássemos, elas nos queimariam feio.
     
    Lídia ficou triste porque gostava de ver a labaredazinha se contorcendo, seguida de um pequeno pipoco. Logo eu e Laércio procuramos um outro jeito para ela se divertir: juntar o maior número possível de lagartas, colocar todas num cesto, levá-las para a estrada e jogar lá. Depois era só esperar uma carroça e torcer para que ela passasse por cima. Assim a gente aliviava a culpa. Era uma alegria muito grande quando a gente ouvia os pneus fazendo ploc-ploc, e o lugar ficar amarelo de tanta gosma. Os cavalos também matavam, os cascos ploc-ploc. Era nojento, mas era bom.
     
    Passávamos o dia inteiro tão entretidos que tia Marluce nem dizia mais nada e já nem implicava tanto que Lídia passasse o dia quase todo pelos matos. Se não fosse a gente, as lagartas tomariam conta da casa, invadiriam a despensa, a cozinha. Só faltava isso, vê-las entrar nas panelas, se esconder sob nossos travesseiros, nos queimar durante a noite naquele lugar tão deserto. Esse, o nosso maior medo, se uma nos queimasse, morreríamos antes de chegar à cidade. A luta com as lagartas parecia não ter fim. Era o dia inteiro a gente pegando, eu já tinha enchido não sei quantos sacos. Lídia já estava cansada de jogá-las na estrada, Laércio já tinha esmagado tantas que o solado de sua sandália era uma pasta só. Mas lagarta, assim como vem do nada, se vai do mesmo jeito. Naquela manhã, quando acordamos e fomos direto para os cajueiros com vontade de acabar de uma vez por toda com elas, não vimos mais nenhuma. Tinham desaparecido, como por encanto. Diziam que viravam borboletas. Voltamos para casa sem saber como iríamos preencher o resto do dia. A casa parecia deserta, até que ouvimos um barulhinho vindo do quarto. Quando abrimos a porta, tomamos o maior susto: tia Marluce estabanada debaixo do corpo de seu Laurentino, se contorcendo toda que nem uma lagarta.

     
    Este conto faz parte do livro:

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