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  • A História Secreta dos Mongóis #Conto Companhia das Letras

    Este conto foi retirado do livro:
    Histórias naturais
    Marcílio França Castro


    “A história secreta dos mongóis”, de Marcílio França Castro — parte 1


    “O verdadeiro problema dos mapas”, ele disse, “não é de escala ou de projeção; também não é de fidelidade ao território. O verdadeiro problema dos mapas é não conseguirem acompanhar a ação do tempo.”
     
    Essa conversa começou, me lembro bem, numa daquelas tardes em que fui fotografar na Nanquim, quando estava fazendo o ensaio sobre imigrantes chineses em São Paulo. Era o início de 2012, ano do bicentenário da imigração. Devo ter encontrado Serhat ali umas três ou quatro vezes. Ele ficava o tempo todo assentado em uma mesa no fundo da loja, com o abajur aceso e lupa na mão, examinando os mapas que Lao lhe trazia. A simpatia foi mútua, e logo fizemos amizade. Apesar de turco, Serhat fala um português excelente; acho que chegou a morar alguns anos em Salvador e no Rio.
     
    “Estou falando do mapa perfeito”, ele continuou. “Sempre tivemos fascínio pelos mapas perfeitos, não é? Há quem tenha dedicado boa parte da vida à tentativa de criá-los. No século xvii, por exemplo, sei de um padre jesuíta, matemático e professor de Descartes, que ficou conhecido por idealizar reinos em miniatura, com mares e rios esculpidos no chão. Lewis Carroll, em uma de suas fábulas, imaginou antes de outros o mapa do tamanho do mundo — o mapa que cobriria todo o território, coincidindo com ele. Hoje, qualquer um pode se meter a cartógrafo; basta usar um programa de computador. Ninguém mais fala em unicórnios e bestas, só em atlas tridimensionais. Mas a ciência ainda não venceu sua maior dificuldade, não mudou o destino dos mapas. Eles continuam se deteriorando, tornando-se farrapos, à mercê dos cães. Papel, pele de animal, pedra, telas. Não importa. No fim, o tempo sempre devora o espaço.”
     
     
    2.
     
    A Nanquim é uma livraria pouco conhecida, mas requintada. É frequentada quase só por bibliófilos e colecionadores, mas sobrevive há mais de trinta anos. Lá importam livros chineses, japoneses; comercializam mapas e manuscritos antigos, gravuras, cartas. Lao, o proprietário, vem de uma cidade do sul da China. Desembarcou no Brasil em 1977, depois de estudar na Inglaterra. Entre os que fotografei, é dos poucos que não caíram no ramo de lanchonetes ou no comércio de bugigangas. Casou-se com uma mulher de Pequim, teve três filhos brasileiros. Dava aulas de mandarim em escolas particulares, até descobrir que podia ficar rico vendendo antiguidades.
     
    Não foi fácil ganhar a confiança deles, é claro. Foi só depois de muitos mal-entendidos, e isso aconteceu com quase todas as famílias de chineses que contatei, que consegui convencer Lao a permitir o ensaio dentro da Nanquim. Já tinha fotografado outras famílias na Liberdade, a maioria trabalhadores sem muitos recursos. Lao é diferente; é um homem instruído. Na livraria, eu tentava me manter discreto, em silêncio. Muita paciência, aquele cheiro de madeira e jasmim no ar, passava a tarde esperando uma chance — o momento em que Lao iria se distrair, e a China, a China inteira, invadiria por um instante o seu rosto. De vez em quando, ele e a mulher se metiam entre as estantes, tiravam um livro, sentavam-se nos banquinhos. Ficavam ali conversando em mandarim, rindo, sem responder a ninguém — e era como se uma cápsula os isolasse do mundo.
     
     
    3.
     
    Há na Nanquim um depósito com vários mapas antigos, trazidos por Lao de suas viagens ao Oriente e à Europa. Ele abria os rolos sobre a mesa, Serhat os examinava um a um. Juntos, os dois classificavam peças, discutiam, avaliavam a origem e a autenticidade, o preço. Serhat está acostumado a viajar — roda o mundo atrás de cartas raras, que abastecem seu antiquário em Istambul. Daquela vez, ele me disse, vinha rastreando um mapa mongol antigo, possivelmente do século xviii, um mapa que seria a cópia de outro ainda mais antigo, do século xiii — da época de Gêngis Khan. “Só de ser mongol, já é incomum”, falava. Já tinha vasculhado em Praga, na Cracóvia, em Linköping, na Suécia. Havia uma chance de a peça ter vindo parar no Brasil, uma chance remota, mas ele não podia deixar de conferir.

    Lembro que um dia, depois de vários chás, mostrei a Serhat uma bateria de fotos que eu tinha feito na livraria. Ele olhou, olhou de novo com cuidado, não fez nenhum comentário. Apenas apontou um detalhe, algo que se repetia em várias delas, e que não me chamara a atenção. Um velho mapa asiático, emoldurado na parede, atrás do balcão, aparecia em quase todas as imagens — castanho, encardido, com a China imensa no centro do orbe.
     
     
    4.
     
    Concluído o ensaio, continuei frequentando a Nanquim, mas não supunha que fosse ver Serhat novamente. Ele já tinha voltado para Istambul. Em 2013, recebi convites para outros trabalhos. Fiz um ensaio sobre velhos centenários, outro sobre casas em ruínas. Tirei algumas fotos vagabundas para jornal. Uma revista alemã me encomendou uma trilogia difícil, que me custou muita paciência. Era sobre rostos anônimos: grupos de pessoas desconhecidas entre si que deveriam aparentar um traço comum. O melhor convite, porém, veio no semestre passado. Uma amiga, dona de uma pequena editora, me propôs um estudo sobre fronteiras: descobri-las, fotografá-las. Não as oficiais, as que dividem os países, mas as invisíveis, aquelas que estão de algum modo escondidas ou desmoronaram. Foi esse trabalho que me levou a reencontrar Serhat.
     
     
    5.
     
    O antiquário de Serhat em Istambul fica em uma ruela íngreme nas vizinhanças da İstiklal, uma das vias mais movimentadas de Beyoğlu, no norte ocidental da cidade. Muitos sebos e construções decrépitas, fios de luz atravessados, roupas pendendo das janelas. Você vai dobrando os becos até chegar ao casarão do século xix, de três andares, bem na encosta do terreno — por pouco seria uma torre.
     
    Empurrei a porta, dei de cara com Serhat atendendo um casal de americanos. Foi a única vez que o vi em ação: rápido, minucioso, divertido, até o cliente sair de olhos vidrados, levando alguma peça debaixo do braço.
     
    Ele me recebeu com alegria, mas sem surpresa. Mostrou-me sua casa, contou um pouco a história do negócio. Depois subimos para um chá. Era um escritório estupendo, repleto de livros, tapetes, porcelanas. Uma janela larga se abria para o leste: de uma ponta a outra, esfumaçado e gordo, o Bósforo, e, além dele, o Oriente.

    Eu tinha passado por vários lugares antes de estar ali. Em Buenos Aires, por exemplo, caminhei do centro à periferia, em linha reta, querendo ver onde terminava a parte urbana, onde começava a rural (sempre duvidei dos limites dessa cidade). Na Europa, fotografei a Galícia, as redondezas de Estrasburgo, a parte francesa do país basco. Há sempre uma fronteira que não está no território, que surge de forma casual: uma tempestade, uma árvore, um animal. Era isso o que eu tentava achar, é isso o que até hoje busco. Em Lisboa, rastreei as marcas da cidadela moura. Em Berlim, visitei moradores à sombra do muro, onde ele não existe mais. Já em Istambul, qualquer esquina pode ser um limite oculto; basta prestar atenção.
     
    Essas coisas eu ia contando para Serhat — que escutava com interesse. Quando mencionei certa região da Dinamarca, ele me interrompeu. Foi até um armário, voltou com uma pasta larga de papelão.
     
    “Não localizei em São Paulo”, ele disse, “mas sim em Copenhague.” E abriu a coisa em cima da mesa.
     
    Estava ali um mapa medindo cerca de um metro por um e pouco, desenhado à tinta. Sujo, áspero, com as cores conservadas. Era, sim, um mapa mongol do começo do século xviii. E, como ele tinha previsto, reproduzia um original do século xiii. Teria sido feito por um copista letrado, chinês ou russo, sob as ordens de algum soberano mongol devotado às artes. No verso, uma nota dava detalhes de como tinha sido copiado, e descrevia assim a fonte: “Mapa dos territórios presentes e futuros do primeiro imperador, Gêngis Khan. Preparado pelo secretário príncipe Yelü Wen Zheng [Yelü Chucai], por determinação de sua majestade”. A data do original — 1226, um ano antes do desaparecimento de Gêngis — foi inferida por Serhat.
    Acho que, na verdade, Serhat não esperava topar com uma relíquia dessas. Um desconhecido lhe telefona de Copenhague, querendo uma avaliação. Não era colecionador — havia achado a peça na biblioteca que fora do avô. Envia-lhe por e-mail uma fotografia. No começo, Serhat considera que é a cópia de algum mapa chinês, certamente de valor, mas não tão raro como um mongol legítimo. Examina o que pode (o material fotográfico não ajuda), começa a pesquisar. Pesquisa bastante, enfronha-se na história mongol, nos estudos de sua parca cartografia. Aos poucos se dá conta de que está diante de um achado. Telefona de volta para o sujeito, quer dar-lhe o parecer, mas o mapa já não está mais com ele.
    Se não fosse a obsessão de Serhat, eu acho, esse provavelmente seria apenas mais um documento perdido, um dos tantos papéis mongóis que os estudiosos desejam, por um golpe de sorte, encontrar. Após deixar São Paulo, ele vai a São Petersburgo, passa por Budapeste. Volta a Linköping, onde já tinha feito uma busca (foi nessa cidade que August Strindberg, o escritor, descobriu, em 1878, mofando em uma biblioteca, cópias dos dois mais antigos mapas mongóis conhecidos). Só então, depois de várias investidas fracassadas, se dá conta da armadilha em que tinha caído. Volta a Copenhague, onde a caçada começara, e lá finalmente identifica a peça, nas mãos de um estudante de música — que não entendia nada de cartografia. O homem que lhe telefonara de início não passava de um farsante — havia visto o mapa com o estudante, fotografou-o e resolveu consultar um especialista. Vendo que a coisa era valiosa, deu a Serhat uma pista falsa, tentando tirá-lo do caminho.
     
     
    6.
     
    Ao contrário dos mapas que eu me acostumara a ver na Nanquim, a China não estava no centro daquele — se é que ele tem um centro. Da Coreia aos arredores de Budapeste, do golfo da Finlândia à península de Leizhou, o mapa mostra trilhas, cordilheiras e desertos, pontes e dunas, montanhas sagradas, ruínas. Poucas são as muralhas, os castelos, as cidades. Vi (e fotografei) pequenas marcas para nuvens de poeira e cavalos, além de camelos selvagens. Talvez se possa achar aí alguma influência budista, mas isso não consigo dizer. O mar Cáspio é azul, assim como o Negro. As estepes são vermelhas, e vão se dissipando entre o preto e o branco. O desenho é orientado para o Sul, onde aparece um dragão. Vi outros bichos gravados (um rato, um macaco, um tigre), cada um para um ponto cardeal. As notações, todas em mongol, aparecem em várias direções, partindo dos limites do Império para as bordas do papel, como um cata-vento.
     
    “É um mapa nômade”, Serhat fazia questão de repetir. “Não é como os outros, impregnados da técnica e da burocracia chinesas. Este mostra a tradição das estepes, de tempos anteriores à época em que o original foi desenhado.”
     
    De fato, mesmo um leigo podia perceber. Havia ali detalhes — certos recantos, certos atalhos — que só um olhar próximo e minucioso, carregado de afeto, de quem viveu como nômade, poderia ter registrado. “Quando a estética é nômade, o mapa é móvel”, me disse Serhat, tentando resumir a lógica dessa cartografia.

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